Todas as fotos publicadas são de minha autoria, tiradas com telemóvel.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A praia da minha vida

Praia das Pedras Negras


Foto minha


Em criança nunca fui à praia com os meus pais e irmãos, como seria normal acontecer numa família, porque eu tinha oito e o meu irmão Lele onze anos quando fomos abandonados pela nossa mãe.

Alguns meses depois, o nosso pai um dia disse-nos "amanhã vamos à Praia do Pedrogão" ficamos ansiosos, eu não imaginava como era uma praia, nunca tinha visto nenhuma, nem sequer na televisão, porque também nunca tinha visto uma televisão.

No dia seguinte, o meu pai fez-nos levantar cedo, para eu e o meu Lele deixarmos o gado tratado, enquanto ele arranjava o farnel (como lhe chamávamos) para levar.

Chegou a hora de partirmos, os três na sua bicicleta, ele colocou uma mola da roupa em cada perneira das suas calças para que não ficassem presas na corrente.
No quadro colocou presa com alfinetes uma almofada com que dormíamos, que era cheia com (camisas) palha de milho e, aí  fomos nós, eu sentada de lado na almofada agarrada ao guiador e o meu irmão sentado atrás no suporte segurando o cesto do farnel.

A viagem seria de uns 10 km, não sei bem, recordo que durante a viagem foram varias as vezes que o meu pai disse ao meu Lele "tem cuidado, não toque com os pés nos raios da roda" a mim perguntava-me "dói-te o traseiro, ou tens as pernas dormentes, se tiveres diz, que paramos" mas a minha ansiedade era tanta que respondi sempre "não", o pior foi quando chegamos, assim que saí da bicicleta caí de imediato, porque não sentias as pernas de tão dormentes.

Recordo com emoção a sensação indescritível que senti naquele momento em que vi o Mar pela primeira vez, acho que foi paixão à primeira vista.
Aproximamos-nos dele, meu pai e meu irmão arregaçaram as calças, eu levantei o vestido e chapinhamos na água que estava muito fria, molhamos só as pernas, isto foi em 1964 e vivíamos numa Aldeia, o que não permitia que se mostrasse mais do que até ao joelho.
Ficamos sentados à beira mar, ainda hoje sinto aquele cheiro da maresia, comemos e viemos embora, a viagem era longa.

Depois desse dia convencemos o meu pai a repetir o passeio, ele aceitou, dizendo "desta vez vamos conhecer a Praia da Vieira e a Lagoa da Ervideira"e assim foi. 
Poderiam ser uma destas, a praia da minha vida, mas não o são.

Anos depois e já casada, comecei a frequentar a Praia das Paredes, onde acampávamos na praia junto ao mar, também íamos muito para S. Pedro de Moel onde alugávamos uma barraca, mas preferia a Praia Velha ou a das Pedras Negras, onde eu pescava com a minha filhota mais velha e o pai, são praias enormes, onde não necessitamos de pedir licença para caminhar, sempre gostei que as minhas filhotas pudessem brincar sem incomodar.
Continuei a ir à Praia das Pedras Negras com as minhas filhotas, ou sozinha, após o pai delas ter falecido.

Houve praias que foram importantes na minha vida, mas a das Pedras Negras, essa sim, atrevo-me a dizer que é a praia da minha vida, foi e será sempre a "minha" prainha, o som deste mar é mágico, é o melhor calmante, adoro caminhar pela manhã , ou ao fim da tarde, bem juntinho a ele.

Este mar é o meu grande amigo, foi nele que encontrei forças muitas vezes, quando julgava não ser capaz de suportar tanto sofrimento.
Foi com este mar que falei, chorei, foi na sua companhia que escrevi dezenas de cadernos, simples folhas mortas de papel para onde passo as minhas emoções.
É com este mar que ainda hoje vou ter, quando estou menos bem.

Foi na Praia das Pedras Negras que eu disse SIM ao Rodrigo, o meu "folha seca" gosto de ir com ele ver este mar a qualquer hora, mas ao fim da tarde, ver o por.do-sol, são momentos mágicos e únicos, só nossos e, isso ninguém vai conseguir tirar-me.

A Praia das Pedras Negras é sim a Praia da minha vida.
Se concretizarem o meu desejo é este mar que vai levar as minhas cinzas.

23 comentários:

Pratos da Bela disse...

Amei e chorei de emoção ao ler este teu excerto de vida, muito obrigada pela partilha, sei que és uma flor maravilhosa, mas após este excerto tenho ainda mais orgulho de ser tua amiga, Muito obrigada pela partilha.
ADORO-TE a ti e à minha TUQUINHA.

Pedro Coimbra disse...

Pedrógão, São Pedro, Vieira.
Também passei aí bons momentos, Adélia.
Até porque, pelas florestais, se ia num saltinho da Figueira até essa zona.
Abraços

Arnoldo Pimentel disse...

Um texto que emociona, e ver o mar pela primeira vez e ainda criança é deslumbrante.Beijos

Manuela disse...

Querida Flor, gostei muito de conhecer as praias da tua vida. Especialmente esta que tem sido uma espécie de tua amiga, nos maus e bons momentos da tua vida.
Obrigada pela partilha :)

Lídia disse...

OLÁ AMIGA!!!
Gostei de ler estas suas lembranças...ou talvez mais seus desabafos!!!

1 beijo amiga!!!

Muitos dias felizes!!!

Lídia

Rosa dos Ventos disse...

Bela narrativa evocativa...e não só!
Já eu não me lembro quando vi o mar pela primeira vez, era muito pequenina, certamente!
Também gosto dessa praia!

Abraço

Vivian disse...

Bom dia,Adélia!!

Que lindo amiga!!Belo texto!
Adoro o mar também!!Só que sempre fui desde bem pequena com meus avós!Meu avô era pedreiro e construiu muitas casas na praia e sempre nos levava junto!!Tenha lembranças ótimas deste tempo...
Beijos pra ti!!
Lindo começo de semana!

Everson Russo disse...

Gostosos e bons momentos da vida,,,a emoção do sentir,,,do viver,,do sonhar...grande beijo de boa semana pra ti.

folha seca disse...

Adélia
A blogosfera é isto mesmo. Acabamos por nos ir desnudando e até acabamos por lembrar coisas que já estavam arrumadas na nossa memória.
Mas já agora, não me lembro do teu "SIM". Lembro-me de gozares comigo por aparecer junto a ti com uma toalha de banho. Como não ia à praia há muito, não tinha uma toalha para isso. O sim que me lembro, foi a aceitares o convite para irmos juntos passar uns dias ao Minho, o resto fica só para nós.
Beijinho

Flor de Jasmim disse...

Rodrigo
Foi esse sim, ter aceite o teu convite que fez com que a minha vida voltasse a fazer sentido.
Beijinho

P.S.Esqueceste de falar no escaldão que apanhaste.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Adorei este retalho da sua vida, Adélia! Será que posso considerar este post como uma resposta ao desafio que lancei lá no CR?

Flor de Jasmim disse...

Carlos
Claro. Acabei de publicar no "rochedo" um comentário nesse sentido.
Abraço

carol disse...

Que linda história, Flor! Pena ser um pouco triste - mas a vida é assim e a sua parece não ter sido mesmo nada fácil.

Ainda bem que conseguiu e consegue ir buscar forças ao Mar. Temos de as ir buscar aonde elas nos atraem.

Continue a falar de si que é um gosto lê-la!

Beijinhos salgados...

N. Barcelli disse...

Fiquei preso ao teu texto do princípio ao fim. Emocionaste-me...
Querida amiga, boa semana.
Beijo.

✿ chica disse...

Lindo e tocante teu relato e só pode ser especial pra ti essa praia.Lindo!bjs,chica

alma de pássaro disse...

Mamã,amei as tuas palavras! Fizeste-me recuar no tempo...
Infelizmente,a morte levou-nos alguém que amávamos muito,mas os momentos felizes que lá passámos,esses,ninguém nos tira...
Amo-te muito
Feliz Dia dos Avós
(está um post pra ti no meu blog)

Lacorrilha disse...

Adorei.
Mas que estranho, acho que nunca estive na Praia das Pedras Negras.
Quanto a São Pedro de Moel, é tudo de bom. É a minha praia.

Evanir disse...

Que a semana comece com o azul do firmamento,
O verde da esperança .
Que paz e o amor esteja presente em sua vida.
Não posso digitar tudo que sinto,
mais posso te afirmar que
minha amizade será para a eternidade.
Beijos no coração com infinito carinho e ternura,Evanir.

Tuquinha disse...

Não sei que te diga.......
e que tal conhecermo-nos?????????
Traz o teu RO e vem contar-me essa praia pessoalmente.É uma Honra ter-te como amiga....

Nota: quanto á Bela se assim continua ainda deixa o pessoal a pensar que anda aqui "algo de muito intimo entre algumas de nós blogueiras".......hehehhe
Tb gosto mtuito de vós tb.

luar perdido disse...

Lugares, momentos, pequenas/grandes coisas que são tantas e tantas vezes as nossas vidas, o fio que as prende, o sentido delas...
Bela a tua descrição, imagino a sensação. Eu sou mais amante dos verdes e das arvores em sussuros misteriosos, mas o mar e o seu som inconfundivel são musica sem duvida. Tocante!

beijos de luar

Dina Vieira disse...

Passei para deixar um beijinho e vou emocionada com o que li...
Obrigada por não desistires do meu cantinho,e pela preocupação.Está tudo bem,tive mesmo de me ausentar. Aos poucos, vou voltar a dar vida ao garfo magico.
Beijocas

paulofski disse...

A bicicleta, a praia, o mar e o amor. Tudo se conjuga na memória que tenho presente. Adorei e muito o seu texto.

Cumprimentos.

redonda disse...

Cheguei aqui pelo link no Crónicas do Rochedo e achei muito bonito o que escreveu.